
Lia um suplemento de jornal quando deparei com um parágrafo que me beliscou. No texto “O prazer de dizer não”, o poeta e autor alemão Hans Magnus Enzensberger, 78 anos, refletia sobre sua trajetória fazendo um paralelo com a política de sua pátria.
“Atualmente, a Alemanha se tornou tão habitável que é dirigida por uma dona-de-casa. Melhor assim. Tranqüilizador. Sonho com o dia em que a política será um serviço público entre outros, útil com a coleta de lixo, livre das paixões que nos fizeram tanto mal. A política não deve invadir tudo. Foi por isso, por autodefesa, que escolhi a literatura, a poesia, o amor e as viagens”.
Não que tenha achado um disparate. Ocorre é que me preocupo tanto em avaliar os prós e contras de socialistas, liberais e populistas que há muito tempo não imaginava um Estado asséptico, desideologizado. É sonho, obviamente. Mas o utilitarismo implicado nesse parágrafo parece estar preocupado com o bem comum e se importa com as conseqüências do exercício do poder.
Se nos pusermos de acordo com Enzensberger, discursos comunistas, populistas, nacionalistas e nazistas viram troças, palavras sem efeito, bradadas em tom ridículo. A ideologia da desideologização pede uma postura prática e defende o fim da perseguição política. O governo deveria ser um serviço público tão discreto quanto a coleta de lixo. Na eleição, contrataríamos administradores em vez representantes de esquerda, direita ou loucos ambidestros.
Em tempos que não restam opções, em que o sonho marxista-leninista ruiu completamente, talvez a sugestão acima não seja despropositada. Somente os beneficiados do sistema acreditam que encontramos uma fórmula coerente e justa no capitalismo (pseudo)democrático-liberal.
Foto: site www.latinamericanstudies.org
5 comentários:
Que achado essa declaração deste poeta alemão. Muito bom o post. Faz pensar, mesmo sendo algo utópico. ou talvez por isso mesmo, não sei.
Che, muito bom. Um Estado livre dos "ismos" que só fizeram por se comer uns aos outros - e nos encher, ao fim, de tantas ideologias perdidas vomitadas como verdades - é algo fantasticamente utópico e, ao mesmo tempo, absurdamente intrigante.
Abraços, Hennemann!
Achei lindo, mas será que haveria evolução?
É a idéia do Anarquismo (="sem governo"), que foi deturpado na linguagem popular pruma idéia de bagunça, quando na verdade é a defesa do princípio da menor interferência possível do Estado na vida do cidadão. Como naquela frase: "governa melhor quem governa menos".
Che, dá uma olhada da charge sobre Fidel que tá no meu blog!
Abração.
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